O mago da fotografia gastronômica

De sorriso fácil, tímido (detesta ser fotografado!), gentil e com uma cultural invejável a todos os níveis, a entrevista aconteceu em Figueras, sua cidade natal, onde cresceu, em um restaurante justo enfrente ao museu Dalí. Foram duas horas e poderiam ter-se transformado facilmente em quatro. Interessante personagem com fino sentido de humor.

Falamos de como a sua infância passada no seio de uma família burguesa com inquietudes intelectuais foi decisiva para decantar-se pela fotografia, de suas visitas a Perpignan todos os finais de semana com os avós para respirar “novos ares”  e dos estágios de verão em Arles onde teve a oportunidade de compartir momentos com os grandes do gênero.

Falamos também da enorme quantidade de quadros que a família possuía e que ele cresceu contemplando-os e dos avatares aparentemente sem sentido que lhe ocorreram na vida, como doenças e acidentes que lhe forçaram estar imóvel durante meses, fatores que alega serem a causa de ter desenvolvido uma especial aptidão para o enquadre fotográfico.

Da sua paixão pela solidão, motos e viagens, sempre que possível evitando ao máximo os aviões.

Catalão, ama a França e vive entre Perpignan, Cadaques  e Rosas. É um habitué dos melhores restaurantes do país e estrangeiro onde o seu trabalho é requisitado. Longe de ser figura empostada ou metido a divo, sua simplicidade faz que se esqueça que estamos frente a um dos melhores fotógrafos gastronômicos do mundo. Os irmãos Roca, Paco Torreblanca e Carmen Ruscadella avalam, entre outros, o dito.

Francesc  Guillamet é conhecido por ser o responsável  das criativas fotografias que sempre acompanharam o Bullí. Era cliente do restaurante, pois morava na região, quando o mesmo ainda não tinha nenhuma projeção e digamos não muita clientela. Com o tempo fez-se amigo de toda a equipe que lá trabalhava, entre eles cozinheiros hoje em dia relevantes dentro da gastronomia como Andoni Luis Anduriz de Mugaritz ou Oriol Castro.

A paixão do fotógrafo e de Ferran Adría pelas fotos dos livros de cozinha (em especial três, que na época foram revolucionários, O gosto da China, Bras (Michel Bras) e La Nature dans L’Assiette (George Blanc) acabou de atar o laço, parceria que durou mais de 15 anos, rendeu umas 1800 imagens e uns 100.000 disparos!

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O seu background era outro e o comentário do famoso chef quando viu o portfólio de Francesc foi: “Bom… Quem fotografa paisagens deve saber fotografar sardinhas… ”  Nos últimos 15 anos do restaurante, Ferrán Adriá somente aparecia nas sessões fotográficas para dizer um olá tamanha era a confiança.

Como o mesmo Guillamet explica: “Em definitiva, nada mais se trata que posicionar circunferências, línhas e ângulos dentro de um retângulo com harmonia”. Puxa, dito assim até parece fácil!

Diz ter aprendido a fotografar comida de forma empírica, ou seja, conforme a necessidade do momento. As técnicas eram estudadas ou desenvolvidas em função do objetivo, e que o mais importante sempre foi não se copiar, aliás uma magnífica dica para quem tiver uma veia criativa a seguir.

Para ilustrar o contexto de “não se copiar” Francesc  Guillamet me enviou essas quatro fotos.  Nas três primeiras foi necessário criar um artefato mecânico especial para dar a sensação de movimento, porém a técnica apenas foi utilizada em três imagens e apenas em uma o vermelho como fundo, apesar de ser uma cor muito atrativa .

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A sua primeira imagem para o restaurante foi “Os Salmonetes Gaudí” e é justamente a que ilustra a capa do livro “El Bulli, El Sabor del Mediterrâneo (1993)” o primeiro projeto da parceria e levou um ano para ser produzido. O processo esteve recheado de pequenas anedotas divertidas como o fato de ter sido realizado em luz natural, inspirado no livro de Blanc acima citado, devido a que ele não tinha flash nem lhe interessava ter! Ou a odisseia que supunha enviar o filme das fotos em ônibus para serem reveladas em Barcelona…

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Seguiram-se muitos outros, como a aclamada coleção elBulli 1998-2005. Para então só era possível fotografar  com a cozinha em funcionamento, devido a complexidade dos pratos sendo apenas viável os que estavam no menu.

Perguntado qual foi a maior dificuldade ao se deparar com a fotografia gastronômica responde –“Representar os 5 sentidos em 1. Porém, com o passar do tempo me dei conta que devido à grande empatia que no momento envolvia a equipe e trabalhando ao lado de profissionais criativos, rigorosos, com um discurso bem posicionado, sabendo como queriam transmiti-lo facilitou e muito a tarefa. Também me dou conta agora que a história acabou, que o que para mim era um trabalho como outro qualquer na verdade era uma exceção, não todos os restaurantes e chefs trabalham do mesmo modo”.

Comenta a “osmose” ocorrida onde os cozinheiros se tornaram um pouco fotógrafos e o fotógrafo um belo gourmet!

 

Francesc Guillamet e Albert Raurich fotografados por ©Maribel Ruiz de Erenchu no Bulli

 

Atualmente procura trabalhar somente com quem deseja uma colaboração continuada, não acredita no trabalho esporádico sem vínculos. Alguns são amigos remanescentes do Bulli, como Oriol Castro , Eduard Xatruch e Mateu  Casanãs proprietários Compartir em Cadaqués e Disfrutar em Barcelona (aberto a 5 meses e já despontando como um dos melhores da cidade , um mini Bulli). Paco Perez, por quem tem uma especial admiração (Restaurante Miramar **/Llança – Girona) ou o horticultor de míni-verduras francês Maison Sales, um dos patrocinadores de  importantes eventos foto gastronômicos em Paris.

 

Diz que o ato de comer não só é cultura, gera cultura. Prefere a frugalidade se não é para ter uma experiencia similar ao que se sente por uma bela obra de arte. Ainda se fascina ao fotografar pratos, o fator surpresa não deixou de existir. Acha enfadonho a pretensão sem a capacidade, trocando em miúdos: Tem que entregar o que se promete.

Não possui muitos livros de cozinha (além dos que ele como fotógrafo participa) e reconhece que há um em especial que até hoje permanece com o plástico da compra, por gostar tanto que lhe dói comparar. A humildade dos grandes. (Ufff… nem vou dizer qual é!)

Em comparação diz não ter ideia de quantos livros de fotografia possui.

Próximos projetos? Como os pintores ele trabalha com vários ao mesmo tempo: Com data para o final de ano: Um livro fotográfico sobre a vida e diversidade dos Perineus, a cordilheira  fronteira natural entre a Espanha e a França que vai do Atlântico ao Mediterrâneo interligando duas culturas completamente diferentes, a do norte e a do sul

Trabalhando nele sem muita presa: Digamos que será como uma autobiografia fotográfica onde exporá a visão do seu trabalho e vida convergindo no vértice comida.

Prato de um cozinheiro que ele adoraria (sim, essa foi a palavra dita…) clicar: Michel Bras.

Francesc Guillamet é formado em Técnicas Clássicas de Fotografia. Apesar de ser mais conhecido por seu trabalho gastronômico, a obra não termina aí. O lado intimista do fotógrafo mostra instantâneas em branco e preto onde sem apenas manipular o entorno capta a beleza do instante único de luz e composição, onde só um artista sabe ver a beleza, ou formata sutilmente uma realidade contando uma história, cheia de sensibilidade como no caso do livro sobre o escultor catalão Maillol.

Em 2010 a sua obra passou a fazer parte da BNF (Biblioteca Nacional da França) no apartado Enologia e Arte Culinário. No mesmo ano participa na Exposição “A Arte de Comer “ realizada no emblemático espaço cultural Edifício La Pedrera em Barcelona, figurando ao lado de geniais artistas como Pablo Picasso, Miguel Barceló e Antonio Lopes.

Livros

  • El Bulli – El Sabor del Mediterràni de Ferran Adrià
  • Entre mar i muntanya – Apunts de cuina a l’Empordà de Xavier Sagristà
  • Los postres de el Bulli de Albert Adrià
  • La cucina SOTTOVUOTO de Joan Roca y Salvador Brugués
  • Paco Torreblanca – Paco Torreblanca 2
  • Carme Ruscalleda -Del Plat a la Vida de Jaume Coll
  • Foie Gras de André Bonnaure
  • El Bulli 2003-2004 – Ferran Adrià, Juli Soler, Albert Adrià
  • El Bulli 2005 – Ferran Adrià, Juli Soler, Albert Adrià
  • Comer Arte- Francesc Guilamet -Una visión fotográfica de la cocina de Ferran Adrià (2011)
  • Ferran Adriá – L’Art des Mets – Jean Paul Jouary