A pergunta pareceria estranha em muitos lugares como aqui em Seattle ou em Barcelona, já seja pela grande quantidade de imigrantes asiáticos, ou pela paixão que muitos chefs catalães professam ao Japão e o puseram de moda.  No Havaí é a sobremesa sucesso!

Não acontece o mesmo no Brasil onde ainda é um desconhecido ou quando não simplesmente ignorado.

Eu reconheço que em nenhuma das milhares de vezes que visitei o bairro da Liberdade, me atrevi com o bolinho de arroz recheado de azuki. A ideia de comer feijão doce e arroz grudento não me era muito atrativa. O tamanho tampouco ajudava… Talvez um pouco grande para apenas experimentar.

Uma pena, pois após me abrir para a experiencia por primeira vez em São Francisco, numa pequena loja de doces japoneses onde os tinham para degustação, virei fã!

Vários fatores jogaram a favor: o visual, primeiro. Como não provar uns docinhos tão lindos, e translúcidos? Pareciam bochechinhas de bebes. (O segundo fator, cá entre nós, é que estando acompanhada do Brent, meu marido, forcei a situação: Experimenta vai… Ele fez cara de Humm… Gostoso! Então lá fui eu!

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Na realidade eram Daifukumochis, os bolinhos de arroz da boa sorte, um presente muito bem-vindo no Japão. Normalmente são pequenos, uns três centímetros, preparados em delicados tons pastel e modernizados com diferentes recheios: ganache clássico e de chocolate branco ao “matcha”, geleia de frutas ou o tradicional anco (pasta doce de azuki). Também os Ichigo Daifuku, os que vem recheados de morango (esses só comprados frescos) são bem populares.

Acompanhados de chá verde são a combinação perfeita para uma pequena merenda a meia tarde.

Já de noite com um bom saque é uma harmonização ideal para compartir… Poucos sabores casam tão bem! Há algo de especial nesse “pairing”.

Pesquisando sobre o tema, me dei conta da importância cultural e o valor afetivo que os japoneses professam ao bolinho puxa-puxa. Considerado um alimento sagrado, surgiu antes de Cristo e só era permitido aos nobres e ao Imperador degusta-lo em ocasiões especiais e celebrações religiosas permanecendo secreta a sua elaboração. Apenas no século XVII, se democratizou e tornou-se popular.

Quando falamos de mochi falamos de uma pasta feita a base de água e uma variedade de arroz glutinoso chamado Mochigome. De grão curto, redondo e bem branco, quando cozido desenvolve extrema viscosidade.

O Mochitsuki, processo de elaboração tradicional, é laborioso e ao menos duas pessoas muito bem sincronizadas, são necessárias para levá-lo a cabo. O arroz após a cocção ao vapor é socado em um pilão de madeira ou pedra, onde uma segunda pessoa vai agregando pequenas quantidades de água quente e volteia a massa constantemente até que resulte uniforme, suave, elástica e super grudenta!

Hoje em dia as máquinas facilitam a função (aliás é divertido ver como funcionam) e em algumas receitas o uso de Mochiko, farinha de arroz glutinoso, é um bom substituto. Até o micro-ondas entra na parada para um preparo rápido.

O mochi também é utilizado seco e o processo tradicional leva dois meses. Produzido nas regiões mais frias do país, são cortados em forma de retângulo, embalados em papel branco um a um e postos a secar ao ar livre a temperaturas baixo zero. A técnica permite um tempo de conservação de mais de um ano, sendo mantidas todas as características do produto.

De sabor sutil e neutro se presta às mais variadas preparações em…

Doces e…

 salgados.

 

 

Consome-se durante o ano todo, mas é a partir de Outono, após a colheita do arroz, quando vira o rei da festa em importantes festividades devido a sua simbologia e conotações espirituais:

CopyNo Tsukimi (Festival da Lua Cheia), na primeira lua cheia do outono, quando se diz que esta em sua maior resplandecência. São colocados à luz da lua como oferenda aos deuses agradecendo a colheita. Diz a lenda que olhando atentamente a lua nesse dia se pode ver a figura de um coelho amassando mochi. Coincidentemente, a palavra Mochitsuki – amassar mochi e Lua Cheia se escrevem diferente mas se pronunciam da mesma forma.

No Ano Novo a cerimônia de elaborar a massa do mochi é um ritual fundamental do festejo. Os bolinhos fazem parte da primeira refeição do ano em uma sopa chamada Zoni, e em forma de decoração e oferenda no “Kagami mochi” e no  ‘Kagami-biraki’. (está tudo bem explicadinho abaixo)

Uma anedota nada engraçada porém curiosa é que apesar de se consumir como auguro de boa sorte, cada ano morrem dezenas de japoneses sufocados, na sua maioria idosos, durante a celebração. A elasticidade do mochi é potenciada ao ser aquecido na sopa e acaba sendo perigoso se não ingerido em pequenas porções.

Minha fascinação pelo tema obrigou a encompridar  o artigo, acrescentando algumas tradições envolta ao acepipe .

Espero que seja do agrado, e com a curiosidade atiçada, quem nunca provou, que o faça!

Ozoni ou Zoni

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A imprescindível sopa servida no ano novo. É preparada em centenares de formas por todo o Japão, sendo o único denominador comum o mochi. Cada região tem sua especialidade e cada família sua interpretação pessoal. Valorizam-se os produtos regionais típicos da zona, como algas, peixes, ovas de salmão, missô, flocos de atum seco, e por aí afora.

Kagami mocha

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Os japoneses passaram a comemorar o ano novo de acordo com o calendário gregoriano só em 1873, antes seguiam o calendário lunissolar (chinês) e o ano novo caía na segunda Lua Nova após o solstício de inverno que invariavelmente é no 21 de dezembro. Sabendo isso entendemos melhor o porquê as duas rodas feitas com mochi, que tem um referente lunar já comentado, são usadas como base principal da decoração para a ocasião. A tradução da palavra kagami é espelho, e é prestada ao ornamento devido a semelhança que guarda com os antigos espelhos de cobre usados na antiguidade para fins religiosos.

Dois discos sobrepostos, um maior que o outro, com uma laranja azeda (Daidai) coroando e montado em um pequeno pedestal de madeira é o básico, podendo ser enriquecido por vários outros elementos todos com um significado especial.

É colocado como oferenda no altar principal da casa e onde se deseje que o deus Toshigama, a quem a festa é dedicada, dispense fortuna e boa sorte.

Kagami-biraki

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A tradução é “abertura dos espelhos” e a cerimônia marca o encerramento das festividades de Ano Novo. Para então kagami mochi é quebrado (nunca cortado o que seria uma ofensa) e preparado das mais variadas formas. Acredita-se que ao ingeri-lo a energia de Toshigama é absorvida e com ela o ano entrante se projeta com esperança e cheio de boas oportunidades.

Mochibana

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Outra decoração para a festa de Ano Novo que surgiu ao norte do país onde no inverno rigoroso a cor branca da neve predomina por um longo tempo. Ramas de salgueiro enfeitadas com pequenas bolinhas de mochi na cor rosa e branca representam os brotos da ameixeira, pessegueiro ou a tradicional cerejeira na esperada primavera. Dão cor e um ar festivo às casas.

 

Ao terminar de se construir uma casa…

Uma simpática briga de mochi é praticada para esse evento. Os felizes proprietários do novo imóvel atiram desde o telhado grandes quantidades da guloseima a toda a comunidade de vizinhos congregados para o ato. Todos fazem questão de angariar quantos mais melhor, e a competição fica bem disputada, já que ninguém que perder as bênçãos que o mochi traz.

Nos casamentos…

Comer mochi augura ao casal uma vida conjugal longa, que fiquem “grudados” para sempre.

Hatsu Tanjo (o primeiro aniversario)

O primeiro aniversário é muito comemorado no Japão e são praticados vários rituais, bem interessantes, como tudo na cultura nipônica.

Um deles é que a criança carregue nas costas um farto com 1 Issho (uma antiga medida usada para os líquidos e que vem a ser 1.8 kg) de mochi e com isso caminhar um curto trajeto onde os pais delicadamente o encorajam para que chegue a meta. Obviamente os bebes caem, e choram mas são levantados e redirecionados. Praticar o breve ritual é a forma de desejar aos seus rebentos saúde, harmonia, paz e integridade. É como dizer: “A vida está cheia de altos e baixos, se cair levanta e continua”.