É… adoro mesmo!

Sem dúvida também seriam as palavras de vários personagens ao redor do mundo incluindo Julia Roberts, Gerard Depardiue, Nicolas Sarkozy, Anne-Sophie Pic ou Michel Brás que tem como objeto de culto a especial navalha mescla do “capuchadou” francês (pequena faca da região de Aveyron) e a fina e elegante “navaja” dobrável espanhola.

No pequeno povoado de Laguiole onde a familia Brás também possui o seu estrelado restaurante,  a visita á “Forge de Laguiole”, interessante estrutura arquitetônica projetada pelo designer  Philippe Starck toda em alumínio e vidro, é obrigatória.

Estamos falando de uma instituição!

Está considerada na França como produtora de artigos de luxo.

O que a faz tão especial?

A sua excelência, a mesma com a qual se constrói um Rolls Royce ou se produz um Chateau d’Iquem.

Difícil não sucumbir aos encantos da perfeição. Até um leigo sabe que a coisa vai a sério.

O seu peso, as formas puras e precisas, acabados acetinados perfeitos, brilhos elegantes, laminas adamascadas, as navalhas mais cobiçadas pelos colecionadores.

O mantra da forja é “100%Laguiole – 100% Artesanal”. Isso que dizer feito em casa uma a uma. Para se obter uma única peça são necessários mais de 40 procedimentos.

É na forja (também realizada na mesma fábrica) que se inicia o processo de incrível beleza onde fogo, óleo e maestria se juntam para dar à lâmina sua tempera.

Após, um mesmo artesão será o responsável de ensamblar manualmente e com precisão todas as 14 peças que formam a navalha e realizar de forma impecável os acabados incluído  o desenho das esquadrias e polimento do mango.

Este pode ser de madeiras nobres como o Cedro, Oliveira ou Jacarandá (sempre com certificado de procedência), a clássica ponta de chifre, o moderno acrílico, madeira de carvalho fossilizado, flocos de ouro ou o aço original da Torre Eiffel. Não há limite para a criatividade. Já foram realizadas sob encomenda peças exclusivas com antigos tonéis de vinho de grandes safras, frisos de madeira com vários séculos provenientes de castelos e couros pertencentes a celas de montarias reais.

As talhas exclusivas, jóias apenas ao alcance de alguns poucos afortunados (com uma lista de espera de até doze meses) que podem chegar a custar 70.000 €  (como a realizada para uma princesa no exílio em platino ouro e pedras preciosas) saem da mão do grande maestro Virgilio Muñoz Caballero, premiado 1986  com o maior reconhecimento que a França confere aos seus melhores profissionais : O“Meilleur Ouvrier de France” .

Seu virtuoso trabalho é o contra ponto que equilibra os novos ares com o antigo espírito da região de Aveyron, onde a cutelaria é uma tradição de longa data

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  Os designers e estilistas Sonia Rykel, Yan Pennor’s, Eric Raffy, Hermés, Courrèges, Philippe Starck, quem teve incluído o seu “Laguiole” dentro da coleção permanente do M.O.M.A., são alguns dos nomes que aportam modernidade à tradição criando obras de arte para a marca.

O futuro é algo que não assusta à um “Laguiole”, já que soube captar os signos do tempo e elevar um encere de utilidade à objeto fetiche.

Frase de um sábio: Sua beleza vem antes que sua utilidade.

 

O que se deve saber sobre um “Laguiole”

Pronunciasse “Laiole”, é um detalhe que os “connaisseurs” agradecem.

Para não “cortar”  a amizade lembre de cobrar ao menos cinco centavos caso queira presentear um Laguiole. É uma antiga tradição onde obsequiar objetos cortantes traz má sorte, logo a moeda cumpre o papel de  “compra”.

Em Laguiole, um “Laguiole” não é apenas uma navalha, é um símbolo de confraternização, onde cada um porta o seu numa reunião de amigos. É o primeiro que se põe na mesa e o ultimo a se retirar, com ele há de se cortar o delicioso salsichão artesanal da região ou o famoso queijo regional.

A primeira “faca” Laguiole com “design” contemporâneo e realizada em prata foi desenhada pelo próprio Michel Brás para o serviço de sala de seu restaurante. Amante da sua região e tradições quis que essa importante peça fizesse parte do seu projeto gastronômico. Após, vários estrelados chefs seguiram o exemplo: 15 dos 26 restaurantes franceses com três estrelas Michelin tem um Laguiole à mesa.

Alguns modelos levam uma discreta cruz incrustada no mango, reminiscência da  quando se levava os animais ao pastoreio ou em transumância, e não havia como acudir aos serviços religiosos, fincavase na terra no momento das orações.

Uma navalha Laguiole nunca se submerge em água ou se molha. Igual às maquinas de pasta italiana, basta limpar com um pano ou papel.

Abelha ou Mosca? Eis a questão…

Cada Laguiole tem em sua esquadria uma abelha (?) incrustada. Diz a lenda que  Napoleão  tinha o laborioso inseto como símbolo em seu manto imperial, permitindo aos habitantes da região  como reconhecimento à atos de bravura em batalha fazer uso do mesmo. Outros afirmam ser uma tradição relativamente nova, sempre se usou um decorativo na esquadria, contudo esse podia e pode derivar em variados temas. Trevos de quatro folhas para dar sorte aos recém-casados (era tradição que os noivos fossem obsequiados com uma “Laguiole” de marfim) cabeças bovinas, relógios, ferraduras…

Um pouco da sua história

Desenhada na sua primeira versão por Pierre-Jean Camels em 1829, um fabricante de navalhas do povoadinho de Laguiole (de onde recebe seu nome) teve imediata aceitação.

De pequeno porte e dobrável com uma resistente lamina forjada tornou-se indispensável para aqueles que trabalhavam no campo.

Em 1880 foi acrescentada uma outra peça à navalha: um saca-rolha para servir à demanda dos paisanos que partiam para trabalhar como garçons em cafés de Paris que orgulhosamente o portavam sempre à vista.

Em 1900 o objeto do campo tornou-se muito apreciado pela alta burguesia parisiense que mandava fabricar-los com acabados de materiais luxuosos como o marfim.

Com o tempo (devido à fatores como as guerras e o êxodo rural) o centro de fabricação foi transferido para Thiers, que continuavam a fabricar baixo o nome de “laguioles” a característica navalha.

Em 1987 Gérard Boissins,  personagem local, decidiu como missão defender o “Laguiole” contra a adesão por Thiers, e injetar um pouco de vitalidade econômica na região.

Direcionou seus empreendimentos abrindo A Forja de Laguiole, registrou a marca para proteger a autenticidade do produto, e com um golpe de mestre pediu ao designer Philippe Starck que concebesse o vanguardista projeto: uma construção (em forma de L) feita com grandes vidraças e a representação de uma enorme lâmina ficada no teto.

Hoje com uma posição sólida dentro do mercado francês, a região está produzindo mais facas que nunca, Paris ficou pequeno e um importante mercado de objetos de luxo no exterior, cada dia mais demandante, absolve 15% da produção.

A operação não foi fácil, más permitiu a região recuperar uma parte importante de sua cultura e economia sem ter que abrir mão das tradições.